sexta-feira, 26 de junho de 2015

DIVIDINDO O SERVIÇO

- Ué, mas ela não está viva?
Agenor já tinha visto a Cecília. No trabalho. Mas foi no churrasco de aniversário do doutor Clóvis que eles, mais soltinhos pelo chope, começaram a conversar sobre suas vidas. Ela comendo um contra bem passado, ele devorando uma picanha sangrando, ela do setor de expedição, ele do RH, ambos jurando que o trabalho era temporário. Tinham planos. No fim da festa, ele de carro, ela a pé, sopa no mel. Ela morava sozinha, num apartamento na Lapa de baixo. Sopa no mel.
- Está viva! Claro que está viva, Agenor.
Cecília já estava de olho no Agenor muito antes. Só não houve chance de aproximação, trabalhavam em setores diferentes, se viam, mas pouco se falavam. Depois do churrasco, da carona e do café da manhã com presunto e ovos (“Como os americanos”, disse ela sorridente.) começaram a visitar o setor um do outro com mais frequência. Depois, um começou a esperar o outro na saída do trabalho. Quando começaram a chegar juntos de manhã, todas as manhãs, com o cheiro do mesmo sabonete em seus corpos, foram demitidos. O doutor Clóvis não gostava de relacionamentos entre funcionários, como explicou a secretária e amante do doutor Clóvis. Não ligaram. Sempre souberam que aquele emprego era temporário.
- E a filosofia?
Morarem juntos, além de uma questão sexo-sentimental, era um alívio econômico. Um aluguel só, uma conta de luz, uma conta de telefone. Os dois não ficaram desempregados por muito tempo. Por razões de segurança, cada um foi trabalhar em uma empresa diferente. Por isso e porque foi o que apareceu. Agenor não tinha a menor vontade de chefiar embaladeiras de uma pequena indústria de cosméticos e Cecília não gostou de cuidar da contabilidade da central de uma rede de oficinas mecânicas autorizadas. Talvez se fosse o contrário... Mas eles precisavam de dinheiro. Tinham planos. E foi o que apareceu.
- Que filosofia, Agenor? Isso é hora de filosofia?
O tempo é um chato. Faz duas coisas desagradáveis com as pessoas, além de envelhecê-las: torna defeitos evidentes e faz com que elas mudem com ele. Os defeitos do Agenor foram saltando aos olhos da Cecília, junto com as manchas de queimado que o cigarro dele colocaram nos móveis, com a necessidade cada vez maior de ganhar dinheiro pra tentar colocar em prática os planos que tinham, o que fazia Agenor estar a cada mês mais tempo fora de casa. Além disso, ele comia carne mal passada! Cecília podia aguentar tudo, menos aquele sangue pingando na toalha da mesa e na camisa branca do Agenor. Ela só comia carne bem passada, quase torrada, justamente pra evitar aquela sujeira. E foi esse defeito do Agenor que fez com que a Cecília, com o tempo, fosse mudando. Cecília começou a pegar nojo do Agenor. Não sempre. Só quando ele comia carne mal passada. Bastava um bife sangrento no almoço de domingo pra ela não conseguir dar nem um beijo nele até segunda à noite. Mas ela não podia contar que estava com nojo do marido. Gostava dele. Queria viver com ele. Tinham planos.
- Ser vivo é ser vivo!
Se pelo menos o Agenor não comesse mais carne na frente dela... Era isso! Se a Cecília não comprasse mais carne, ele não ia poder comê-la mal passada. A carne. Mas como não ter carne? O Agenor adorava bife! Mas o Agenor também adorava a Cecília. A solução era Cecília tornar muito importante não ter carne em casa. Agenor respeitaria se fosse importante para ela. Uma noite, tomou coragem e despejou as palavras. Havia ensaiado por dias e sabia como chegar ao ponto. Era uma crueldade matar os animais para comer. Os animais eram seres vivos e necessários na natureza. Eram como nossos irmãos na vida. A maneira como eram abatidos apenas pro nosso prazer era uma indignidade! Agenor ainda tentou argumentar que gente também era ser vivo e que ele, se não fosse assim tão necessário na natureza, ao menos a parte dele era necessária nas contas da casa, que não era uma questão de prazer e sim de ingestão de proteínas e que, afinal, não estavam falando do gatinho da vizinha ou do poodle da irmã dela. Um bife mal passado, uma boa picanha ou um franguinho assado não criavam exatamente um desequilíbrio ecológico. Cecília, em nome da manutenção da relação, bateu o pé. Não iria mais colaborar com aquela barbárie. Abaixo os comedores de seres vivos!
Cecília conseguiu retomar o romance. Os outros defeitos do Agenor até pareciam inexistentes. Não havia mais bifes sangrentos pingando. Beijos tórridos voltaram a preencher as noites do casal. Só que a criação foi tomando conta da criadora e Cecília, descontroladamente, foi ampliando a área de ação. Não bastava proteger os bois. E as pobres das aves? Criaturas com direito à vida. Nossos irmãos! E a maravilhosa fauna aquática? Peixes, camarões, lulas... Salvem as ostras!
Os sentimentos do Agenor não arrefeciam. Ele amava Cecília. Mas a hora do jantar estava ficando insustentável. A mesa era verde demais pra ele. E o que não era verde era soja! Agenor jantava fora de vez em quando, pra comer um contra-filé, uma picanha, até de um picadinho ele tinha saudade.
Mas um dia, apareceu a barata. Cecília mudara muito, estava espiritualizada, a pele estava linda e Agenor dizia que ainda bem, já que só ela cobria os ossos. Cecília tinha até entrado para uma ONG. Só que lá dentro daquela nova Cecília vivia a velha Cecília. E a velha Cecília tinha pavor de baratas! E a barata apareceu. No meio da sala! Descaradamente, sem a menor cerimônia! Cecília recolheu as pernas pra cima do sofá e começou a tremer. O Agenor, sentado ao lado dela assistindo ao jornal na TV, tinha que fazer alguma coisa. Era uma barata!
- Não tem comparação, Agenor. Mata essa barata!
- Vamos cuidar do planeta, amor. Do direito à vida. Mas não dá pra cuidar de tudo de uma vez. Então a gente divide o serviço. Você evita a morte de bois, frangos, camarões, peixes. Eu evito a morte de baratas, ratos e aranhas. Vamos manter o equilíbrio do planeta e a dignidade dos nossos irmãos em vida.
O casal se mudou pra Florianópolis. Foi lá que apareceu a chance de abrir um negócio, como era o plano do Agenor. Então ninguém da turma ainda viu de verdade. Mas dizem que o negócio do Agenor é uma churrascaria e quem cuida da contratação de pessoal, do caixa e da contabilidade é a Cecília. E que na casa deles, hoje, barata que conseguir vencer a dedetização é tratada a golpes de chinelo número 42. Elas que não façam planos!

quinta-feira, 12 de março de 2015

FAZ VINTE ANOS!


     Quando eu era adolescente, entre 15 e 17 anos, cuidava de um jornal na escola. Não era um jornal de verdade, era um mural humorístico onde fazíamos críticas aos professores, piadinhas com alunos, fazíamos montagens com fotos recortadas de jornais e revistas pra brincar com o pessoal do curso. Era um Facebook dos anos 70, época em que o humor era menos patrulhado, a expressão “hater” ainda não havia sido cunhada nem colocada em prática, ninguém sequer conhecia a palavra “bullying”, logo não ficava traumatizado com a ideia e trolagem ainda era chamada de gozação mesmo. O jornalzinho, semanal, se chamava A TOCHA. Nosso slogan, escrito logo abaixo do logotipo do jornal (uma tocha acesa) era: “O que os outros jornais não trazem, A Tocha traz”. Tempos onde ser jovem era ter a impressão de ser livre, onde revolucionar coisas significava subverter a ordem, o status quo, e não exigir uma regressão a proibições e à mão de ferro de poderosos. Outros tempos. Se melhores ou piores não sei. Mas eram outros.

     O que importa é que eu cuidava do tal jornal. A Tocha. Eu era o, digamos, editor chefe da coisa. Mas assumi isso não pra me sentir jornalista e sim pra escrever com liberdade, pra colocar no papel o que me desse na telha. Eu gostava da ideia de escrever em um jornal. Mas não tinha a intenção de me tornar um repórter. Queria escrever, mas não notícias. Com o tempo, aprendi que quem faz isso, em geral, é um cronista. Escreve sobre o que vê, o que sente, o que lembra, o que pensa, enfim, sobre o que tiver vontade. Descobri que grandes autores estudados na própria escola tinham sido cronistas em jornais: José de Alencar, Machado de Assis, Nelson Rodrigues... Eu queria ter textos publicados em jornais, como eles. Mas era difícil. E eu era preguiçoso demais pra correr atrás de coisas muito difíceis.
     Os anos se passaram e, aos 24 anos, conheci uma figura inusitada. Um personagem do ambiente cultural noturno paulistano no qual eu estava inserido desde que tinha entrado para o elenco de A Pena e a Lei, a convite de Carlos Alberto Santana. Nesse elenco conheci Amaro Sant’anna que, por sua vez, me apresentou a duas pessoas: Silton Cardoso e o personagem ao qual me referi acima: Alexandre Camilo! Cabelos cacheados descuidados, um problema em uma das pernas que trazia desde a infância, um discurso fácil, um papo maluco-beleza, uma entrega a longas discussões artísticas, políticas, filosóficas, uma facilidade em manter o calor de um debate por uma noite inteira. Tudo regado a muita cerveja, na quantidade que só jovens embalados pelo sonho conseguem ingerir. Éramos nós nos velhos tempos. Orvietto, Planeta’s, Montechiaro, Gigetto, Sujinho, Bar da Mãe, Piolim, Estadão, a ronda noturna de bares e restaurantes era grande. Todas as noites. E os temas “altamente pertinentes” não se esgotavam nunca.
     Novamente passaram-se anos. Fomos ficando mais velhos, a vida foi nos distanciando fisicamente. Alguns se casaram e tiveram filhos. Carlos Alberto foi embora, primeiro mudou de estado, depois mudou de planeta. Amaro foi pra Bahia e virou um nativo, nunca mais quis voltar. Silton continuou por aqui, batalhando a vida, mas tempos depois também se foi. Talvez esteja fazendo projetos com Carlos Alberto em algum lugar no Universo. Alexandre saiu de São Paulo. Mudou-se para Boituva.
     Há exatamente vinte anos, o velho amigo e companheiro de debates Alexandre Camilo entrou em contato dizendo que estava criando um jornal cultural: O Papyrus. Ele queria uma crônica minha para o primeiro número. Aquilo acendeu todo o fogo da adolescência. Passei uma vida pensando que teria sido bom ter algum texto meu publicado em um jornal. Já tinha escrito peças que haviam sido montadas, roteiros que foram filmados, já tinha histórias para rádio levadas ao ar. Mas texto meu em jornal continuava em suspenso. Nunca havia acontecido. Ali estava minha primeira chance. Aos 41 anos de idade! Imediatamente enviei um texto chamado “Qual o Problema com o Português?” que falava da aversão de alguns brasileiros a filmes dublados.
     De lá pra cá, venho tendo textos publicados no Papyrus. Hoje, aos 61 anos, vinte anos depois, continuo tendo meu nome impresso no jornal. Me sinto grato. Me sinto feliz com isso. E me sinto orgulhoso de ter feito parte dessa grande aventura do Alexandre desde o primeiro momento. O Papyrus foi, em princípio, um projeto doido, com jeitão de inexequível, a cara do maluco-beleza dos anos 70. Mas o Alexandre acreditou nele, batalhou por ele, sofreu por ele, se desgastou por ele, se sacrificou por ele e hoje aí está... completando vinte anos de existência.
     Longa vida ao Papyrus! Mais longa ainda! Parabéns ao Alexandre pela força e pertinácia, por não desistir nos maus momentos. Parabéns a todos que participaram dessa viagem de vinte anos colaborando, escrevendo, patrocinando, apoiando. Parabéns aos que proporcionaram motivos para o jornal existir, lendo, acompanhando, comentando.
     E parabéns a mim também, por que não? Faz vinte anos que, finalmente, me tornei um cronista publicado por um jornal.
Valeu, Papyrus! Obrigado, Alexandre!

quinta-feira, 5 de março de 2015

O NUNCA-OUVI-FALAR


Ele queria muito aquele trabalho. Aquela profissão era a dos seus sonhos. Muito jovem, cheio de planos, esperanças, ideais, deixou de lado imposições de família, adiou projetos e mergulhou de cabeça naquele mundo no qual ele pretendia viver para sempre.
O começo quase o desanimou. Era difícil entrar naquele meio. Profissionais antigos, bem posicionados, os De-Sempre, torciam o nariz, viravam as costas, não queriam muito envolvimento com ele e com outros como ele, novos, inexperientes, sem treino. O mercado exigia gente treinada e rápida pro trabalho. Era difícil conseguir uma participação. Ele não sabia todas as regras daquele ambiente, estava tentando se familiarizar, tentando se inteirar, se encaixar, se adequar. Tentando ser aceito. E isso era o mais difícil.
- Quem é esse aí?
- Nunca ouvi falar.
- Por que ele está participando do nosso trabalho?
- Deve ser porque faz mais barato do que nós, os De-Sempre.
E, na verdade, isso acontecia mesmo. Ele acabava fazendo pequenos trabalhos, participações desimportantes e o custo do trabalho dele acabava sendo menor. Sem saber ele burlava regras. Mais tarde descobriu que estava transgredindo essa ou aquela norma. Os De-Sempre alegavam com tanta segurança que aquilo era A Lei que ele acreditava. Sem verificar. Sem meios de descobrir. Não era lei nenhuma, era apenas uma norma interna, um combinado, uma praxe, mas ele engolia a afirmação de que era A Lei e pronto. 
Com o tempo, aprendendo aqui e ali, ele foi descobrindo que realmente estava passando por cima de uma coisa ou outra. Em cada lugar aonde ele ia exercer seu sonho havia uma transgressão diferente que era condição sine-qua-non para que os Nunca-Ouvi-Falar pudessem estar lá. Com os De-Sempre não se tentavam aquelas pequenas transgressões. Só as grandes. E grandes transgressões não se comentam, não aparecem, um De-Sempre não acusa outro De-Sempre, a irmandade se protege. Mas os Nunca-Ouvi-Falar apareciam. E ele ainda era um Nunca-Ouvi-Falar. Qualquer deslize dele era notícia e motivo para bloqueios.
Mesmo com toda a dificuldade que um Nunca-Ouvi-Falar tem que enfrentar, ele insistiu. Se manteve apegado ao sonho, ele ia pertencer àquele mundo. Sua intenção inicial era simplesmente entrar, participar e ser reconhecido pelo que fizesse. Agora ele já estava mais calejado e sabia que a única maneira segura de se manter no sonho era se tornar um De-Sempre. Mas ele já havia feito coisas que os De-Sempre consideravam pecado mortal. A princípio por ignorância. Depois, por medo de perder a migalha que havia conquistado.
O tempo foi passando e ele, talentoso que era, foi mostrando que podiam arriscar nele, que já havia aprendido ao menos o básico, que poderia alçar vôos um pouco maiores. Foi se encaixando, tendo oportunidades.
Dez anos haviam se passado. Ele já tinha deixado de ser oficialmente um Nunca-Ouvi-Falar. Mas os enganos do passado ainda estavam grudados na pele dele, dentro das roupas dele, escorrendo pela grafia do nome dele. Era difícil se livrar daquilo. Os De-Sempre eram implacáveis. E ele ainda sofreu por mais alguns anos os freios rasgando sua boca, as rédeas impedindo seu progresso, as esporas ferindo seu flanco para que ele corresse pra longe. Mas ele resistiu.
Agora mais velho, mais experiente, mais político, mais esperto, mais vivido, ele já tinha aprendido as verdadeiras regras do jogo, já tinha entendido como é que se cometiam os Grandes Pecados em particular e como se recriminavam publicamente os pequenos. Ele já tinha treino profissional para fazer bem o trabalho, já tinha segurança suficiente para encarar desafios, já tinha relacionamentos que bastassem para conseguir chamados e colocações. Mas ele ainda estava no limbo. Ainda não era visto como um De-Sempre.
Um dia ele viu surgirem novas pessoas. Novos jovens com planos, esperanças e ideais. E, claro, com desconhecimentos, com enganos, com erros, com impropriedades. Um desses jovens estava batalhando sua entrada no mercado e alguém perguntou:
- Quem é esse aí?
Instintivamente, ele soltou a resposta esperada:
- Nunca ouvi falar.
Olhares interessados se voltaram para ele. Alguns profissionais que ele passou a vida admirando começaram a desenvolver teorias com ele. Os comentários das pessoas em volta passaram a inclui-lo e sua opinião começou a ser pedida e ouvida. Ele, então, para solidificar o momento, para não deixar a oportunidade escorrer por seus dedos, complementou:
- Deve estar aí porque é baratinho.

Naquele momento ele atingiu o ápice. Tornou-se, imediatamente, um De-Sempre. Dali em diante ele passaria a viver no tão sonhado Olimpo. Mas dentro dele, no mesmo instante, morria um jovem cheio de planos, esperanças e ideais que tinha lutado muito pra se manter à tona por mais de uma década.