quarta-feira, 19 de junho de 2013

ARQUEOLOGIA

            De manhã ele havia dublado Juan Carlos na novela mexicana Perfídia em um estúdio na Pompéia. Pouco depois da hora do almoço dublou um desenho japonês no Tatuapé e mais pro fim da tarde um longa metragem americano na Vila Madalena. O dia exaustivo, corrido, tinha chegado ao fim. Nélio Macedo foi para o Largo da Batata pra tomar um ônibus em direção ao centro. Só quando chegou lá e viu o ajuntamento é que se lembrou do Movimento. Centenas de pessoas já ocupavam o local prontas para o protesto que seguiria pela noite. Alguns grupos já ensaiavam palavras de ordem e refrões. O conhecido “O povo, unido, jamais será vencido” e trechos do Hino Nacional era o que mais se ouvia. Mas também já havia os mais contundentes gritando “Fora” ou “Abaixo” várias coisas e pessoas.
            Nélio não se sentiu confortável. Entendia a legitimidade do Movimento e até compartilhava de alguns pensamentos que o orientavam mas nunca se sentiu muito bem em meio a multidões. Tentou se virar pra retomar o caminho de casa e esbarrou em um jovem com roupas estranhas.
            – Desculpe, eu não tinha a intenção...
            – Nouprô. Iô é que estava em... – o rapaz parou de falar e fixou o olhar no rosto do dublador. – Pero... Você é o Nélio Macedo!
            Nélio já estava habituado a ser reconhecido. Afinal, fazia vinte anos que isso acontecia, desde que havia dublado Teco, personagem engraçado de uma conhecida série de TV. Todos os outros trabalhos anteriores e posteriores ficaram de lado. Fazia vinte anos que ele era identificado pelo título que os fãs tinham dado a ele: Eterno Dublador do Teco. O rapaz de roupa estranha se virou para o grupo que o acompanhava.
            – Luquem está acá! O Linguista Nélio Macedo!
            – Você deve estar me confundindo. Não sou linguista. Sou ator.
            – Nossô sabemos. – a moça de cabelos muito curtos se aproximou – Pero usted vai ser tumatnou como linguista. Sucunactomo pra nossô.
            Nélio achou engraçado. Ficou curioso. E, depois do talento pra reproduzir vozes com fidelidade, essa era a característica mais presente em Nélio: a curiosidade.
            – Nossô? Quer dizer “nosotros”, “nós”? Nós quem?
            – Arqueólogos. Nossô viemos a trabalho. Iô, a Migum e o Rossus.
            – Mas vocês são jovens demais para serem arqueólogos. E depois, estão trabalhando no meio de uma manifestação contra aumento de preço de transporte?
            – Enverdá, nossô somos tudants. – disse Rossus. – Pero nossô estamos no lest ano e é assim que nossô du arqueologia. No locaru e no momento certo.
            – Mas arqueólogos cavam terrenos pra encontrar vestígios de civilizações antigas. Vocês vão cavar aqui?
            – Verdá, antigamente era assim que se du. Iô já tudei isso. Pero nossô não cavamos mais. Nossô trip até as civilizações antíguas para ver de verdá como era. Nau é assim que se faz.
            – Nau? Quer dizer “now”? Agora?
            Os dois amigos da moça começaram a rir.
            – Nau? Qual nau? O nosso nau ou o nau dele?
            Migum percebeu o engano. Já ia explicar quando ouviram uma voz forte.
            – Jubum! Ustedes sabem mui bem que não devem interagir tumatche com os locals. Sabem o que mei provocar.
            – Pero, titch, esse é o Nélio Macedo!
            – Iô sei que linguisticamente ele é importante, pero exactli por isso ustedes não devem falar tumatche com ele. Mei criar influências que gerariam um circol sem fim e com consequências increíveis.
            – Pero nossô não estamos acá exactli pra analisar os pequenhos momentos, os djestchá comuns que ocasionaram bigs eventos no nosso tempo?
            – Nosso tempo? – Nélio não aguentava de curiosidade. – Que nosso tempo? Quem são vocês?
            – Iô já disse. Nossô somos tudants de arqueologia. Só que não de nau.
            – Não de... Não de agora? Como assim?
            – Daqui. Djoni quis dizer que nossô não somos daqui. – disfarçou o professor.
            – Por que vocês falam desse jeito engraçado? Pensei que fosse uma gíria nova da garotada, mas você é professor deles e fala do mesmo jeito. É um português que uma hora parece espanhol, outra hora inglês, outra hora japonês... Dubladores passam o dia ouvindo outros idiomas e podem até misturar, mas arqueólogos? – brincou Nélio. – Por que vocês falam assim?
            – Usted perguntando isso? Foi exactli hoje que...
            – Jubun! – o professor interrompeu nervoso. – Ele está clouse demais. É hora de bititief. – tocou em um ponto do próprio peito onde havia uma espécie de botão.
            – Nossô vamos voltar infronte dele?
            – Dos uarus o menor. A interecchion por mais tempo pode ser mais armiful. E ele não vai mesmo ricaisuru o que vai ver. E amongue essa confusão e nesta época, quem vai creer nele?
            O professor acionou o botão. Um clarão surgiu envolvendo os quatro. Manifestantes que estavam próximos se viraram e correram pensando que tinha sido a detonação de uma bomba de gás. Nélio deu um passo pra trás mas não conseguiu tirar os olhos dos quatro. Mesmo assim, eles sumiram da vista de Nélio. Desapareceram em meio ao clarão. Era como se não tivessem estado ali em momento nenhum.
            Nélio ficou parado no meio da manifestação. Já não se importava mais com a multidão em volta. Estava mais preocupado em entender o que havia acontecido. E com a pergunta que sempre vinha à sua mente em ocasiões como aquela:
            – Por que essas coisas sempre acontecem comigo?
            Aos poucos foi retomando consciência de onde estava e foi se convencendo de que talvez tivesse sido apenas uma brincadeira de garotos, talvez aquela luz tivesse mesmo sido provocada por uma bomba de gás, talvez os jovens e o professor tivessem apenas corrido dali sem que ele percebesse. Talvez eles tivessem inventado aquele jeito de falar pra fazer pegadinhas com estranhos. Tentou sair andando, enfiou o pé em um buraco na calçada mal cuidada, tropeçou e caiu de joelhos. Com o hábito de ouvir e repetir palavras de outros idiomas em estúdios, reclamou misturando um pouco:
            – Fuck it, mierda de calçada.
            Três rapazes foram ajudá-lo a se levantar e ouviram o resmungo. Acharam interessante adaptar como palavras de ordem. Um deles, fantasiado de herói japonês, sugeriu trocarem “calçada” por “aumento”. O outro, com a máscara branca acrescentou:
            – Tem aquele negócio que você vive falando, japa. Que quer dizer “chega”.
            – Jubun?
            – Isso vai ser legal. – aumentou o volume de voz – Vamos lá, galera, comigo! Jubun! Fuck it! Mierda de aumento! Vamos misturar. Assim o mundo inteiro vai entender! Jubun!... Fuck it!... Mierda de aumento!
            Em pouco tempo já havia um grupo grande repetindo o grito de forma ritmada.
            Jubun!... Fuck it!... Mierda de aumento!
            Enquanto a massa seguia entoando o novo mantra, Nélio ficou parado. As pessoas passavam em volta dele, seguindo o ritmo das palavras de ordem, repetindo, o coro aumentando, mais gente no Largo da Batata dizendo palavras em quatro idiomas e Nélio parado, entorpecido pela idéia de que talvez tivesse mesmo começado alguma coisa, talvez sua queixa impensada tenha iniciado um novo hábito, um pequeno gesto com grandes consequências no futuro. E ficou pensando em quantas pessoas ali, com pequenos gestos, não estariam criando grandes coisas para o mundo. Ele não saberia dizer naquele momento. Mas talvez arqueólogos de alguma época pudessem descobrir ao analisarem, por observação direta, nossa distante civilização.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

O CASACO

Nélio Macedo saiu do estúdio resmungando. Detestava ar condicionado. Sempre que ia dublar na GPY tinha que levar casaco. Pedro Nero, proprietário do estúdio, remanescente da sociedade com Guilherme e Yone, fazia questão do ar ligado o dia inteiro.

– Faz bem pro equipamento. – explicava Pedro.

– Mas faz mal pros dubladores. – retrucava Nélio. – Ficam roucos.

– Ora, dublador é só substituir. Equipamento custa caro.

Pedro Nero, na verdade, era um ótimo sujeito. Mas tinha pavor de dar a mais ligeira impressão de que, em algum momento, pudesse parecer simpático. Sinal de fraqueza. E empresários fracos nunca se dão bem.

Nélio chegou à calçada e, imediatamente, tirou o casaco. O sol estava forte. Dobrou o casaco sobre o braço e foi almoçar. 

Depois de arroz, feijão, picadinho e uma salada de alface e tomate, tudo regado a um guaraná, Nélio saiu do pequeno bar próximo à GPY e, antes de atravessar a rua, viu o homem do outro lado. Achou curioso. Era muito parecido com Chandler McQuinn, o protagonista da série que ele estava dublando. Mesmo cabelo comprido, mesmo tipo de roupa. A série se passava nos anos 60. A camiseta colorida com mangas largas e a calça boca de sino não combinavam com um homem parado em uma calçada do Sumarezinho nos dias de hoje. O sósia do heroi de série americana abriu um sorriso, deu um passo à frente e disse:

– Nélio!

– Oi. A gente se conhece?

– Que pergunta indelicada. Depois de nove episódios de série?

– O que? Como assim? Que série?

– Peace and Love! Aqui vocês chamam de Anos Malucos. Cada idéia que vocês arranjam pra títulos. Vocês todos têm é um grilo na cuca!

– Sei. É a série que estou dublando. Por sinal, você se parece muito com o ator que estrela. Na verdade, até a voz é bem parecida. Só que você fala português. Antigo, com esse papo de grilo na cuca, mas é português.

– Não, Nélio. Você fala português. E essa voz bem parecida é a que você faz. Foi você que descolou pra mim.

– Que... que conversa é essa?

– Não tá sacando, né, bicho? Eu não sou parecido com o McQuinn. Eu sou o Chandler McQuinn!

Nélio resolveu não dar atenção ao doido. Seguiu em direção ao estúdio. 

– Não tô de lero não, bicho. Eu sou o McQuinn. Fico sacando você todo dia no estúdio, do mesmo jeito que você me vê.

– E eu estou dentro de um filme do Woody Allen, né? 

– Não sei quem é esse Allen e você não está em filme nenhum. Eu é que devia estar mas vim parar aqui.

Os dois chegaram à porta da GPY. 

– Tá, vamos imaginar que você seja mesmo o Chandler. Vamos imaginar que seja possível um personagem sair do filme e vir falar com seu dublador, usando até uma voz bem parecida com a que ele faz pra dublar.

– Aliás, quero te dar os parabéns. Essa sua capacidade de imitação de vozes é uma brasa! Você faz um timbre que é quase igual ao meu mesmo.

– Tá, vamos admitir essa maluquice. Por que você veio? O que você quer?

– De verdade, eu não sei. Estou na mesma confa que você. Mas uma coisa é certa. Por minha causa você tem trabalho por um bom tempo. A série ainda tem quatorze episódios. Acho que você me deve alguma coisa.

– Ah, eu sabia. Todo esse teatrinho é pra arranjar dinheiro, não é?

– Não tô a fim de grana não. Já viu hippie se ligar em grana? Mas esse jaco aí podia quebrar um galhão pra mim. Os próximos episódios vão ser durante o inverno e você saca que o inverno lá bota pra quebrar!

– Tá maluco, rapaz? Acha que vou te dar meu casaco? Eu vou é...

– Nélio! – a voz de Pedro Nero veio de trás dele. Por um instante, Nélio se distraiu, virou pra olhar e sentiu o casaco sendo puxado de seu braço. Ameaçou se virar de volta mas Pedro o segurou pelo ombro.

– Me larga, Pedro! O meu casaco!

– Que foi? Esqueceu no bar?

– Não, o sujeito que estava aqui comigo roubou!

– Que sujeito? Não vi ninguém com você.

– O maluco vestido de hippie com a cara do Chandler McQuinn.

– Você é que está ficando maluco com essas séries que dubla, Nélio. Vem, entra. Eu mandei a Nezita fazer um chá de gengibre pra você levar pro estúdio. Assim você esquenta a garganta e não resmunga do ar condicionado.

Nélio achou melhor não esticar o assunto. O sujeito havia sumido, ele não ia conseguir recuperar o casaco e ainda podiam pensar que ele estava maluco se contasse a história. Não falou mais no acontecido. Nem quando perguntaram se ele não estava com frio no estúdio. Nem no dia seguinte, quando foi terminar o episódio do dia anterior com outro casaco. Não falou nada nem mesmo na semana seguinte quando foi dublar mais um episódio e viu que a história acontecia durante o inverno. E evitou comentar qualquer coisa quando viu Chandler McQuinn na tela com um casaco todo manchado com tintas coloridas, um casaco com ar psicodélico mas, sem dúvida alguma, o casaco de Nélio Macedo!