segunda-feira, 22 de julho de 2013

PODERES

     – Sabe o que me deixa estressado?
     Ascenço, meu amigo com mais requisitos para ganhar um infarto a qualquer momento, puxou a cadeira, se sentou, fez um gesto ao garçom pedindo um copo e nem esperou a resposta.
     – Conhecidos meus que foram às manifestações.
     – E o que tem isso, Ascenço? Deixa de ser implicante. Todo mundo tem o direito de se manifestar, de reivindicar o que quiser.
     – Não é bem assim. O Anacleto, o Assis e a Ariadne não estão com essa bola toda.
     – Ascenço, você só tem amigo com nome começado em A?
     O estressado deu uma parada, boca aberta, olhar fixo no outro lado da rua. De repente, sacudiu a cabeça e retomou a conversa.
     – Sabe o que me deixa estressado?
     – Você já disse... Conhecido seu em manifestação.
     – E gente que interrompe a história com assunto que não tem nada a ver.
     Senti que a coisa era séria.
     – Tá bom, Ascenço, conta aí, vai.
     – Pois então... O Anacleto. É síndico de um prédio na minha rua. Embaixo do prédio fica uma padaria. Um camarada estava com a filha e a sobrinha na frente da padaria. Fotografando as duas. O Anacleto foi lá e impediu o sujeito de fazer as fotos. Disse que a frente da padaria era “área comum” do prédio e que ele, como síndico, não tinha autorizado as fotos.
     – É, tem gente assim. Pequenos poderes...
     – Pois é. Fui falar com ele. Sabe o que ele respondeu? “Não quero saber. Aqui mando eu. Não pediu pra mim, não vai fazer foto nenhuma”.
     – É. Chato. E o Assis?
     – Você conhece o Assis, né? Fiscal de empresa de ônibus. Fica lá no terminal Lapa decidindo a que horas o ônibus sai, marcando o que motoristas e cobradores fazem. Eu estava lá no terminal ontem e vi. O ônibus já estava pra sair. O Assis se dirigiu à porta da frente pra liberar o motorista. Um rapaz chegou esbaforido à plataforma, gritou pro Assis segurar um pouco o ônibus. Quando faltavam uns dez passos pro rapaz atingir a porta, o Assis, mesmo vendo a pressa e a aflição dele, mandou o motorista sair. E o ônibus foi embora. O rapaz ficou no meio da corrida com cara de besta, olhando pro Assis que foi pra trás do balcãozinho dele, morrendo de rir.
     Me senti meio desconfortável com a história. O Assis tem tarefas a cumprir, claro, mas podia usar o pequeno poder dele pra ajudar o rapaz em vez de usá-lo pra se divertir.
     – A Ariadne é uma amiga minha que trabalha numa agência de viagens. Hoje de manhã encontrei com ela na fila do banco, cheia de papéis, contas pra pagar, depósitos pra fazer. 
     – E o que tem isso de errado? Estava trabalhando pra agência, não?
     – Ela é recepcionista! O trabalho dela é atender telefone. Mas o camarada que tem que fazer o trabalho de banco dá o vale-refeição dele pra ela em troca do serviço porque ela está grávida. Assim ela não pega fila, faz tudo rapidinho e ainda sobra tempo pra almoçar tranquilamente. E de graça! E o cara, à tarde, finge que vai fazer o serviço e vai pra casa da namorada. A Ariadne usa o pequeno poder que tem por estar grávida pra realizar dois trambiques. O dela que ocupa a vaga de alguém na fila do banco sem precisar realmente e o do cara que, no fim das contas, está enganando a empresa e namorando em horário de serviço. E, com certeza, ainda almoça às custas da namorada, na casa dela.
     – Mas o que tudo isso tem a ver com as manifestações? Eles têm lá seus defeitos mas, por isso, não têm o direito de reivindicar passagens mais baratas, menos corrupção, cuidados com a saúde, com a educação?
     – Você não percebe? Tudo isso pode ser resumido numa coisa só. E é por isso que eu me estresso. Pela hipocrisia.
     – Como hipocrisia? Que coisa é essa que resume tudo e que te estressa tanto? 
     – O Anacleto que desrespeitou um pai que estava só fazendo fotos da filha, o Assis que desrespeitou um rapaz que só queria entrar no ônibus, a Ariadne que desrespeitou todas as pessoas ocupadas da fila do banco e a empresa que paga o salário dela e do moço que devia fazer o serviço, os três, na verdade, estavam naquela manifestação exigindo uma única coisa: que aqueles que têm um poder maior do que os deles os tratem com respeito! É ou não é pra se estressar?