sábado, 28 de setembro de 2013

RETÓRICA DIGNÍSSIMA E SEUS RESULTADOS REAIS


O Velho Leitor estava no local quando aconteceu. Um sujeito pediu um livro para o Vendedor. Sobre Educação. A livraria não tinha aquele livro e o Vendedor disse que havia um outro, de outro autor, que era muito melhor. O Freguês ficou irritado porque o Vendedor usou a expressão “muito melhor”. Começou uma discussão em voz alta alegando que o Vendedor não tinha conhecimento nem cultura suficientes para discernir qual autor era melhor e que, sem dúvida, o autor que ele, o Freguês, procurava era infinitamente superior ao indicado pelo Vendedor.

O Velho Leitor achou a reação exagerada e, sem que ninguém pedisse, fez um comentário em defesa do Vendedor. Ele só havia emitido uma opinião. O Freguês, então, se voltou contra o Velho Leitor. Quem era ele pra se meter na conversa? Ainda mais que estava com um livro de um autor menor nas mãos. O Freguês começou a criticá-lo, dizendo que ele defendia o Vendedor porque era um vendido à indústria anti-cultura que empurrava livros de má qualidade na população. Que ele devia ter vergonha de contribuir com aquele tipo de editora comprando os livros dela. O Vendedor, a essa altura, já não sabia o que fazer. Veio o Gerente e, pra evitar confusão entre clientes, prometeu demitir o Vendedor. O Velho Leitor ficou escandalizado com isso, não achava decente alguém perder o emprego por causa da opinião de outras pessoas. O Freguês, já aos gritos, declarava que a dele não era uma opinião e sim a única posição digna, decente e honesta de alguém muito preocupado com a educação e a cultura de todo um povo. O Velho Leitor disse que não estaria nas mãos de nenhum dos três a educação e a cultura de TODO o povo, que cada um poderia e deveria cuidar de si de acordo com suas possibilidades e com suas necessidades. O Freguês, já descontrolado, berrou que esse tipo de posição só podia mesmo vir de um consumidor de livros baratos de editoras mequetrefes, de fundo de quintal, e que, portanto, nada do que ele dissesse deveria ser levado em consideração. Opinião boa era só opinião que concordasse com a dele porque, afinal, ali, apenas ele era o preocupado com o todo,com a cultura do povo e com a proliferação de editoras safadas e autores baratos que não deviam nem ter começado a escrever.
O Velho Leitor começou a achar tudo aquilo desnecessário. Pelo menos pra vida dele. Para ele, que diferença fazia se um livro qualquer fosse mal escrito, se a editora cuidava mal da edição, se o preço era pequeno e se o autor cobrava pouco? Os autores de que ele gostava continuavam publicando, as boas editoras continuavam ampliando seus acervos e, no final das contas, mesmo um livro ruim é melhor do que nenhum livro. Alguém poderia começar lendo uma obra menor e, com o tempo, ir melhorando seu discernimento e mudando suas preferências. Assim como o autor novato, com o tempo, poderia se tornar um grande escritor se fosse dada a ele a chance de praticar. E a grande editora que paga bem seus autores não iria abrir as portas pro novato começar a treinar.
O Velho Leitor decidiu não esticar o assunto. O Freguês continuou esbravejando mais um pouco. A retórica dele era imbatível. Quem pode argumentar com alguém que alega estar falando em nome da cultura, da educação, da formação de um povo? Quem pode ir contra alguém que discursa usando essas idéias como pano de fundo para suas opiniões? Quem teria coragem de rebater alguém que, supostamente, fala em nome da dignidade, da decência, da preocupação legítima com a cultura geral? Outras pessoas, pra não entrarem na briga e pra não serem rotuladas como medíocres em público, passaram para a prateleira de livros publicados por editoras que o Freguês dizia serem as boas, as que cumpriam as normas para criar uma cultura verdadeira na população, embora, claro, houvesse livros sem nenhum interesse ou mesmo sem a tal da qualidade literária entre o acervo de todas as editoras, sem exceção.
Resultado... Não havia livros daquelas editoras para todos os que estavam na loja e muitos saíram sem nada nas mãos. Pessoas ficaram sem ter o que ler, a loja vendeu menos, nada se alterou na cultura do povo pra melhor ou pra pior e o Velho Leitor foi embora com o livro que já tinha nas mãos sem entender porque aquilo tudo havia acontecido a partir de um papo onde duas pessoas expuseram suas opiniões.
O Freguês? O Freguês saiu de lá feliz. Mesmo sem o livro que queria. Fez sua parte, denunciou um mau comportamento, levantou questões altamente pertinentes sobre a cultura do país, exibiu sua superioridade e tomou providências imediatamente, doesse a quem doesse. Claro, no fundo ficava também passeando alegremente pela cabeça dele o pensamento: “Exerci o poder que minha cultura superior me deu. Afinal, quem aquele Vendedorzinho pensa que é pra achar que a opinião dele pode prevalecer sobre a minha? E aquele outro sujeito? Na idade dele devia estar numa praça jogando dominó e não defendendo opiniões contrárias às minhas que são as únicas certas.”
Ah, sim. O Vendedor perdeu o emprego. Única consequência real daquele embate.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

CTRL+Z

Não interessa como foi que aconteceu. Se eu tentasse explicar em detalhes, com todas as minúcias ligadas à informática, ao esoterismo e à física quântica, esse relato iria se transformar num tratado bem chato e numa prova irrefutável de que não sou tão bom assim com informática, não sou lá muito esotérico, não sei nem o que é física quântica e não tenho a menor ideia de como foi que aconteceu.
Como diria Chicó, não sei, só sei que foi assim.
Um belo dia, Abelardo acordou e descobriu o CTRL+Z. Bela porcaria, diria o amável leitor, em especial porque está lendo isso numa tela de computador e, sem dúvida, conhece o CTRL+Z há décadas! A combinação de teclas que desfaz a última ação realizada na máquina. Mas Abelardo descobriu que o teclado dele fazia isso com a vida!
Ele estava digitando um relatório, trabalho levado pra casa pra ocupar o tempo e não ficar pensando na Marisa. O gato estava deitado numa cadeira próxima. De repente, sem aviso, o gato pulou da cadeira para o colo do Abelardo. Com isso, ele digitou umas três letras erradas. Imediatamente, pressionou CTRL+Z. As letras erradas desapareceram da tela e o gato desapareceu do colo dele! Assustou-se, estranhou, olhou para a cadeira e lá estava o gato. Abelardo não entendeu, mas desconfiou. Desistiu da desconfiança, que negócio maluco, afinal, a vida não é um episódio de Além da Imaginação. Mas Abelardo estava sozinho. A Marisa não estava. Fazia três meses que não estava. Nem estaria mais. No apartamento, primeiro andar de frente pra rua, só Abelardo e o gato. Abelardo parou o trabalho, levantou-se, andou um pouco, olhou pela janela, viu um cachorro de rua fazendo cocô perto do poste enquanto acendia um cigarro. O Abelardo, não o cachorro. Abelardo não se conteve, voltou para o teclado e digitou CTRL+Z. Maluquice? Mas ninguém ia saber mesmo.
Abelardo chegou a ficar zonzo. Não havia mais um cigarro na mão dele. Olhou para o poste pela janela e não havia cocô ali!
Era muita loucura! O comando do teclado fazia exatamente o que devia: desfazia a última ação. Só que fazia isso fisicamente, no mundo real e não só na tela. Tudo o que fosse feito imediatamente antes do CTRL+Z era desfeito.
Abelardo, a princípio, ficou sem saber como usar o que tinha nas mãos. Fez só molecagens. Quebrou um copo. CTRL+Z. Lá estava o copo inteiro no armário. Rasgou um documento importante que havia levado pra casa. CTRL+Z. Lá estava o documento dentro da pasta, intacto. Exagerou: esmagou a cabeça do gato com uma estatueta de madeira, presente de aniversário que tinha recebido da Marisa no ano passado. CTRL+Z. Lá estava o gato, dormindo na cadeira.
Também não sei direito o que se passou pela cabeça do Abelardo. Aliás, não sei nem por que estou contando uma história sobre a qual sei tão pouco. Só sei que o Abelardo achou que, de alguma forma, aquilo podia ajudá-lo a recuperar a Marisa.
Um ano e meio de convivência. Tinha conhecido a moça numa festa na casa do amigo Wanderson. Ela estava com uma turma da academia, a Luzia, instrutora de aeróbica, o Osvaldo que fazia musculação, o Alex, cuja vocação era o balé, mas o pai insistia em pagar aulas de boxe pra ele. O Wanderson tinha acabado de se matricular na academia porque todo mundo que pára de fumar acha que tem que fazer exercício. Aquela era a nova turma de amigos dele. Dois meses depois, o Wanderson tinha voltado a fumar e parado com a academia. Mas Abelardo e Marisa já tinham trocado telefones, já tinham saído umas duas vezes como amigos, já tinham se beijado e se amassado no cinema e perdido metade do filme, já tinham transado pela primeira vez quando Marisa foi ao apartamento dele e a chuva não deixou que ela fosse embora, já estavam morando juntos e vivendo, Abelardo acreditou, felizes para sempre.
Abelardo pensou primeiro em dar CTRL+Z milhares de vezes, fazendo tudo voltar ao que era três meses atrás, antes de Marisa simplesmente ir embora, depois de um ano e meio de “felizes para sempre”. Não deu grandes explicações. Só disse “Descurti” e saiu. Abelardo achou que ela voltaria no dia seguinte. Não voltou. Nem na semana seguinte. Ele telefonou muitas vezes. Só pra ouvir muitas vezes “Descurti”. Fazia um mês que ele tinha desistido de ligar. Fazia um mês que só trabalhava, dia e noite, pra tentar não pensar na Marisa. Fazia um mês que ele trabalhava dia e noite só pensando na Marisa.
Telefonou. Ela atendeu de má vontade. Ele disse que tinha uma coisa fantástica pra mostrar pra ela. Marisa relutou. Ele insistiu. Marisa desligou. Ele ia ligar de novo, mas agora tinha uma arma poderosa. Sem desligar o telefone correu para o teclado. CTRL+Z. Marisa ainda não havia desligado. Ele inventou um assunto interessante para mantê-la na linha. Ela desligou de novo. CTRL+Z. Lá estava ela na linha. Depois de muito CTRL+Z, Abelardo conseguiu convencer Marisa a dar uma passada na apartamento pra conversar. Ela disse que não iria sozinha. A Marcela vem junto, pensou Abelardo. Toda vez que Marisa tinha alguma coisa importante pra resolver, levava a irmã pra ajudar na decisão. Isso deixou Abelardo esperançoso. Se a Marcela ia, era porque ainda havia alguma decisão a ser tomada.
Tomou um banho apressado, vestiu uma roupa limpa e abriu uma garrafa de vinho. Ouviu o barulho de um carro parando. Uma beleza morar no primeiro andar, de frente pra rua, pensou ele. Correu para a janela e viu a Marisa já fora do carro. A porta da esquerda estava se fechando. A Marcela não vai subir, pensou Abelardo. Tanto melhor. Feliz ao ver a Marisa atravessando a rua em direção ao seu prédio, Abelardo não se conteve. Acenou da janela e gritou: Marisa!
Marisa parou no meio da rua, olhou pra cima e, por um instante, se distraiu. Tempo suficiente para um ônibus apanhá-la em cheio e atirá-la a uns dez metros de distância, rolando pelo chão, se esvaindo em sangue e imediatamente sem vida!
Abelardo enlouqueceu! Não! Marisa! Não pode ser! Mas sabia o que tinha que fazer. Sem olhar de novo pra rua, correu para o teclado. CTRL+Z.
O carro estava parando. Mas, desta vez, Abelardo estava na janela. Sem aparecer. Apenas olhando pelo canto. Não queria distrair a Marisa. Não queria que ela parasse no meio da rua. A porta direita do carro se abriu. Mas em seguida, a esquerda também. De um lado, desceu a Marisa. Do outro lado, desceu o Osvaldo! O musculoso da academia! Ele abraçou a Marisa pela cintura. Trocaram um beijo que quase matou o Abelardo. Osvaldo perguntou: Quer que eu vá com você? Marisa disse: Não precisa. Eu me livro dele rapidinho. Só vim mesmo porque quero pegar o gato de volta.
Primeiro andar. De frente pra rua. Se ouve tudo!
A dor, o despeito, a raiva não cegaram Abelardo o suficiente. Ele ainda conseguiu ver a Marisa atravessar a rua e dar uma corridinha, conseguiu ver o ônibus passar por trás dela, conseguiu ver a Marisa atingir a calçada do outro lado e se encaminhar para a porta.

Nas sessões de análise, o Abelardo diz que não sabe por que fez aquilo. Diz que normalmente ele não é assim. O analista tenta convencê-lo de que aquilo não aconteceu, que ele só está em choque pela perda. Mas Abelardo sabe que antes que a Marisa atingisse a porta do prédio, ele correu para o teclado. CTRL+Z. Voltou para a janela. Quando o Osvaldo entrou de volta no carro, fechou a porta e a Marisa começou a atravessar a rua, Abelardo acenou e gritou: Marisa!

sábado, 21 de setembro de 2013

O NUNCA-OUVI-FALAR

Ele queria muito aquele trabalho. Aquela profissão era a dos seus sonhos. Muito jovem, cheio de planos, esperanças, ideais, deixou de lado imposições de família, adiou projetos e mergulhou de cabeça naquele mundo no qual ele pretendia viver para sempre.
O começo quase o desanimou. Era difícil entrar naquele meio. Profissionais antigos, bem posicionados, os De-Sempre, torciam o nariz, viravam as costas, não queriam muito envolvimento com ele e com outros como ele, novos, inexperientes, sem treino. O mercado exigia gente treinada e rápida pro trabalho. Era difícil conseguir uma participação. Ele não sabia todas as regras daquele ambiente, estava tentando se familiarizar, tentando se inteirar, se encaixar, se adequar. Tentando ser aceito. E isso era o mais difícil.
- Quem é esse aí?
- Nunca ouvi falar.
- Por que ele está participando do nosso trabalho?
- Deve ser porque faz mais barato do que nós, os De-Sempre.
E, na verdade, isso acontecia mesmo. Ele acabava fazendo pequenos trabalhos, participações desimportantes e o custo do trabalho dele acabava sendo menor. Sem saber ele burlava regras. Mais tarde descobriu que estava transgredindo essa ou aquela norma. Os De-Sempre alegavam com tanta segurança que aquilo era A Lei que ele acreditava. Sem verificar. Sem meios de descobrir. Não era lei nenhuma, era apenas uma norma interna, um combinado, uma praxe, mas ele engolia a afirmação de que era A Lei e pronto. 
Com o tempo, aprendendo aqui e ali, ele foi descobrindo que realmente estava passando por cima de uma coisa ou outra. Em cada lugar aonde ele ia exercer seu sonho havia uma transgressão diferente que era condição sine-qua-non para que os Nunca-Ouvi-Falar pudessem estar lá. Com os De-Sempre não se tentavam aquelas pequenas transgressões. Só as grandes. E grandes transgressões não se comentam, não aparecem, um De-Sempre não acusa outro De-Sempre, a irmandade se protege. Mas os Nunca-Ouvi-Falar apareciam. E ele ainda era um Nunca-Ouvi-Falar. Qualquer deslize dele era notícia e motivo para bloqueios.
Mesmo com toda a dificuldade que um Nunca-Ouvi-Falar tem que enfrentar, ele insistiu. Se manteve apegado ao sonho, ele ia pertencer àquele mundo. Sua intenção inicial era simplesmente entrar, participar e ser reconhecido pelo que fizesse. Agora ele já estava mais calejado e sabia que a única maneira segura de se manter no sonho era se tornar um De-Sempre. Mas ele já havia feito coisas que os De-Sempre consideravam pecado mortal. A princípio por ignorância. Depois, por medo de perder a migalha que havia conquistado.
O tempo foi passando e ele, talentoso que era, foi mostrando que podiam arriscar nele, que já havia aprendido ao menos o básico, que poderia alçar vôos um pouco maiores. Foi se encaixando, tendo oportunidades.
Dez anos haviam se passado. Ele já tinha deixado de ser oficialmente um Nunca-Ouvi-Falar. Mas os enganos do passado ainda estavam grudados na pele dele, dentro das roupas dele, escorrendo pela grafia do nome dele. Era difícil se livrar daquilo. Os De-Sempre eram implacáveis. E ele ainda sofreu por mais alguns anos os freios rasgando sua boca, as rédeas impedindo seu progresso, as esporas ferindo seu flanco para que ele corresse pra longe. Mas ele resistiu.
Agora mais velho, mais experiente, mais político, mais esperto, mais vivido, ele já tinha aprendido as verdadeiras regras do jogo, já tinha entendido como é que se cometiam os Grandes Pecados em particular e como se recriminavam publicamente os pequenos. Ele já tinha treino profissional para fazer bem o trabalho, já tinha segurança suficiente para encarar desafios, já tinha relacionamentos que bastassem para conseguir chamados e colocações. Mas ele ainda estava no limbo. Ainda não era visto como um De-Sempre.
Um dia ele viu surgirem novas pessoas. Novos jovens com planos, esperanças e ideais. E, claro, com desconhecimentos, com enganos, com erros, com impropriedades. Um desses jovens estava batalhando sua entrada no mercado e alguém perguntou:
- Quem é esse aí?
Instintivamente, ele soltou a resposta esperada:
- Nunca ouvi falar.
Olhares interessados se voltaram para ele. Alguns profissionais que ele passou a vida admirando começaram a desenvolver teorias com ele. Os comentários das pessoas em volta passaram a inclui-lo e sua opinião começou a ser pedida e ouvida. Ele, então, para solidificar o momento, para não deixar a oportunidade escorrer por seus dedos, complementou:
- Deve estar aí porque é baratinho.
Naquele momento ele atingiu o ápice. Tornou-se, imediatamente, um De-Sempre. Dali em diante ele passaria a viver no tão sonhado Olimpo. Mas dentro dele, no mesmo instante, morria um jovem cheio de planos, esperanças e ideais que tinha lutado muito pra se manter à tona por mais de uma década.