quarta-feira, 30 de outubro de 2013

SONETO MENOR SOBRE A ÉTICA

Há quem convoque o povo para a Ética
empunhando discutível estandarte.
Não sei se há um engano de fonética
ou se a palavra é vítima da Arte.

Mudou-se o conceito, o seu sentido?
Qual significado tem agora?
O antigo, que vem sendo desmentido,
já não se faz tão forte nem aflora.

Os, antes, companheiros proclamados,
defendidos do algoz e do vilão,
julgados são por um conselho hermético.

Ameaças, delações, rostos virados...
Irmão tolhendo a vida de outro irmão.
Já não entendo mais o que é ético.

sábado, 26 de outubro de 2013

AMIGOS E INIMIGOS


Disseram a ele quem eram os amigos e quem eram os inimigos. Ele era bem jovem, estava tateando a vida. Os que estabeleciam as definições faziam isso com um ar de propriedade, com um tom convicto e, na maioria das vezes, em um volume tão alto que não deixava dúvidas. Ele seguiu em frente acreditando que sabia exatamente quem eram os amigos e quem eram os inimigos.
Um dia um amigo o traiu. E um inimigo o consolou. Disseram pra ele que o amigo não traiu, que os princípios exigidos foram negligenciados num caso especial, que aquele era um momento diferente, que ele tinha sido atingido pelo que parecia uma traição como um efeito colateral involuntário da atitude do amigo que, afinal de contas, era um amigo e devia ser compreendido. Ao mesmo tempo conduziram o pensamento dele para a compreensão de que o inimigo não o havia consolado. Na verdade, o inimigo havia se aproveitado do momento conturbado e do sentimento de tristeza que o fragilizava para se esgueirar subrepticiamente, angariar a simpatia dele e, no momento oportuno, usar sua ingenuidade para atingir os amigos. Ele já não era tão jovem, mas ainda mantinha as idéias de Bem e Mal, a distinção entre o Bom e o Mau que lhe foram ensinadas desde o princípio.
Um dia um amigo fez uma coisa vil. Ele não compreendeu. Como um dos chamados amigos poderia cometer uma vileza? Os amigos são sempre bons e estão sempre certos. E as vozes de quem estabelecia as definições continuavam tonitruantes e prenhes de embasamentos e dignidade. Logo, aquilo que parecia uma vileza não passava de um engano de julgamento dele. E quando ele viu um inimigo consertando os resultados da vileza com atitudes que até favoreceram alguns dos amigos, ele começou a achar que havia perdido a capacidade de compreensão das coisas do mundo.
Durante anos seguiu por uma vida conturbada, confusa. Amigos tomavam atitudes de amigos, inimigos agiam como inimigos, no dia seguinte um amigo agia como inimigo e um inimigo tomava atitudes que nem o melhor dentre os amigos havia tomado. Ele começou a achar que essa divisão de amigos e inimigos era muito difícil de visualizar. Ou então ela simplesmente não existia. Pessoas eram pessoas, uma hora eram anjos bondosos, no momento seguinte demônios ardilosos, independentemente de classificações estanques.
Mas as vozes de quem estabelecia as definições continuavam insistindo que amigos e inimigos eram coisas bem definidas e claramente distinguíveis. Ele é que não tinha capacidade para discernir. Ou era um traidor e estava procurando desculpas para se aliar ao inimigo. Ou simplesmente um romântico e todo mundo sabe que não se deve levar em consideração o que um romântico pensa.
O choque de conviver com um mundo cheio de amigos e inimigos que ele não conseguia distinguir de forma definitiva o manteve em suspenso por muito tempo. Até que um dia ele percebeu que as vozes que estabeleciam as definições saíam de pessoas parecidas com ele. Ao olhá-las como pessoas, começou a perceber gestos, atitudes, posicionamentos de um altruísmo heróico vindo delas. Mas também notou baixezas, vilanias, coisas inconfessáveis partindo das mesmas pessoas. Não demorou muito para ele concluir que os donos das vozes que estabeleciam as definições não eram parecidos com ele. Eram iguaizinhos a ele! Com momentos bons e momentos maus, com atitudes grandiosas num instante e feitos vergonhosos em outro. Iguaizinhos a ele. E se eram iguaizinhos a ele, talvez também não tivessem bem definida em suas mentes e seus corações aquela tal divisão entre amigos e inimigos. Afinal, se eram iguais a ele também eram iguais aos amigos e aos inimigos, tinham seus altos e baixos. Iguais a todo mundo.
Desse momento em diante, ele passou a não se martirizar mais com os rótulos impostos e com as definições ditadas. Ele já tinha vivido o bastante e passado pelo suficiente para criar seus próprios rótulos e definições. Passou a dar importância para as coisas que importavam para ele em lugar de dar importância ao que outros diziam que devia ser importante. Começou a viver mais em paz entre os amigos e os inimigos, já que as posições trocavam a todo instante e ele sabia que ele mesmo já havia sido amigo e inimigo de muita gente. E já tinha trocado de posição muitas vezes.
A vida dele passou a ser mais tranquila e, no que realmente importava, começou a dar certo. Mas que ninguém peça a ele pra definir “dar certo”. A resposta vai ser o pensamento de um romântico. E, como já vimos, todo mundo sabe que não se deve levar em consideração o que um romântico pensa.

domingo, 13 de outubro de 2013

A ALDEIA


Os habitantes da Aldeia viviam da agricultura. Plantavam, colhiam, vendiam para outras regiões. Durante anos tiveram muitos Fregueses, vendiam bem, viviam com tranquilidade com o que obtinham do trabalho. Como em todo negócio, havia os que plantavam melhor, os que cuidavam melhor da colheita, os que não tinham lá muita habilidade, os que não tinham absolutamente mão para o plantio... Havia de tudo na Aldeia. E havia um Conselho.

O Conselho da Aldeia era formado por pessoas experientes, reconhecidas por todos e com a melhor clientela. Na Aldeia, toda decisão importante na vida de qualquer dos habitantes só teria valor se fosse tomada na Sala do Conselho. Nada do que se decidisse ou se fizesse que não tivesse partido da Sala seria aceitável.
Num primeiro momento, aquilo foi cômodo para os habitantes. Bastava uma reunião na Sala, ouvir o que o Conselho determinasse, dizer sim e tocar a vida.
Mas o tempo foi passando. Novas maneiras de plantar, de colher, de cuidar da agricultura foram surgindo. Mas o Conselho insistia em que as práticas deveriam ser as mesmas que sempre tinham sido utilizadas. Outras vilas e aldeias também praticavam a agricultura. E, apesar de alegarem seguir as velhas regras, não seguiam. Acompanhavam as mudanças que os tempos impunham, aplicavam novos métodos e novas relações comerciais com os Fregueses. A cada recusa de novos negócios do pessoal da Aldeia, os outros lugares aceitavam e ganhavam os novos Fregueses. O Conselho conclamava o povo da Aldeia a fazer guerra contra as outras vilas, derrubar as casas, queimar as plantações, exterminar aquele Mal pela raiz. Os habitantes da Aldeia, claro, diziam sim quando estavam na Sala. Depois voltavam para o seu trabalho, para suas plantações, para o controle de pragas, para suas colheitas e armazenamentos e não tinham tempo nem disposição para irem fazer a tal da guerra.
Mesmo não percebendo as causas, os habitantes da Aldeia notavam que suas plantações já não eram tão viçosas quanto antes, que suas colheitas já não eram tão fartas, que seus Fregueses estavam migrando para outras aldeias. O Conselho fazia suas reuniões periódicas e acusava principalmente os novos agricultores de estarem destruindo a superioridade da Aldeia. Alguns tentavam argumentar que talvez não fosse culpa dos jovens plantadores, que talvez os métodos estivessem ultrapassados, que talvez os novos tivessem algo a dizer que trouxesse uma luz mais recente aos problemas, uma visão mais atualizada da agricultura e do mercado. O Conselho e seus seguidores calavam os argumentadores imediatamente com comentários sarcásticos, com acusações veladas, com frases de efeito moral, com o descrédito pessoal, com qualquer coisa que impusesse o silêncio na Sala quanto a ideias que fossem diferentes das normas do Conselho. No final, todos reunidos ali, uns olhando para os outros, sem alternativa, sob pena de execração pública, novamente diziam sim e ratificavam mais uma temporada de atividades sob as normas do Conselho.
Um dia alguém experimentou uma coisa que era praticamente proibida na Aldeia: pensou por si mesmo! Se ele não concordava com as normas do Conselho, se ele não achava que aquilo tudo estava sendo benéfico, se ele se sentia prejudicado, se ele viu diversas vezes agricultores com boa vontade, com talento, com capacidade serem erradicados do ambiente por terem ideias não muito concordantes com as do Conselho, por que ele ia sempre à Sala e dizia sim? Ele já tinha sentido o gosto amargo na boca de ter colaborado com uma decisão que considerava errada e injusta. Mais de uma vez. Por que ele ia lá e dizia sim? E, mais precisamente, por que ele ia lá? Afinal, a vida real se vivia fora da Sala. Lá dentro se falava do Ideal e, mesmo assim, era o Ideal do Conselho, não o dele. E o Ideal era só uma ideia. Na vida real, fora da Sala, o Ideal não era praticado nem mesmo pelo Conselho. Todos sabiam disso. Ele sabia disso. Conseguiu chegar à conclusão de por quê dizia sim. Era porque estava na frente de todos e uma das regras dizia que era feio, indecente, imoral, contra a Aldeia não dizer sim. Mas não conseguiu chegar a conclusão alguma de por que ia à reunião da Sala.
Na vez seguinte experimentou não ir. Claro, no outro dia, foi informado de que as velhas normas haviam sido ratificadas. E quem não cumprisse sofreria sanções. Mas insistiu em pensar sozinho. Por que haveria sanções? Estava se descumprindo alguma Lei? Percebeu que não! Quando se descumpria o que se decidia na Sala, apenas não se satisfazia o pensamento do Conselho. Tomou coragem e conversou com outros agricultores. Viu que mais gente estava cultivando o pecaminoso hábito de pensar por si. E ao praticar esse hábito, começou a perceber que havia mesmo muita coisa errada mas que as causas não tinham absolutamente nenhuma ligação com descumprimentos das normas do Conselho ou com a não manutenção de práticas do passado. Pelo contrário. Estavam perdendo Fregueses e produzindo colheitas cada vez piores justamente pela confusão criada pela tentativa inútil de manter um sistema só Ideal mas impraticável.
Na reunião seguinte havia menos gente na Sala. O Conselho ainda dominava, ainda ditava as regras e exigia que todos a cumprissem, mesmo os que não tinham ido. A sanção mais temida era a que não era dita em voz alta, não era oficial, mas era uma realidade que aterrorizava todos, que tirava o sono de muita gente: quem não obedecesse o Conselho seria excluído das benesses do Conselho. Não poderia vender para Fregueses com os quais o Conselho negociasse, não participaria socialmente de nada onde houvesse algum membro do Conselho envolvido, enfim, seria relegado ao ostracismo e teria que abandonar sua plantação e sua colheita e nunca mais botar a mão na terra. Ele analisou com mais cuidado essa possibilidade e descobriu que o Conselho tinha, sim, os melhores Fregueses mas que ele quase não vendia nada pra eles. Na verdade, a maioria dos agricultores da Aldeia sequer tinham contato com os tais melhores Fregueses. Eles vinham vivendo há anos de negócios com os outros Fregueses todos, incluindo aqueles que o Conselho exigia que fossem extirpados do ambiente.
Ele foi se conscientizando de que a obrigação com o Conselho era apenas moral. Uma moral estranha, que não era a dele, não era a de muitos amigos dele, mas ainda assim, moral. O cumprimento das normas era baseado no sim que ele dizia na Sala. Ora, se ele disse sim, tinha acabado de assumir um compromisso de aceitar e cumprir. Mas se ele não estivesse na sala e não fosse levado moralmente a dizer sim, não se sentiria tão compromissado. Seria obrigado a cumprir mas a sanção era ele não negociar com quem já não negociava havia muito tempo. Experimentou uma nova ousadia. Quando foi convidado a negociar com um dos Fregueses do Conselho, antes que alguém pudesse usar isso como ameaça, ele mesmo disse NÃO! Percebeu que nada aconteceu. Depois do não, a vida dele continuou exatamente a mesma que era um dia antes. Outros ficaram sabendo e arriscaram o não. Em pouco tempo, uma grande parte da Aldeia se deu conta de que se não negociassem com aqueles Fregueses estavam livres da única ameaça que os impedia de pensar por si.
Quando os grandes Fregueses perceberam que não tinham mais a variedade de fornecedores que os tornava grandes, foram investigar por que aquilo estava acontecendo. Descobriram que as imposições internas do Conselho tinham alguma coisa a ver com a situação. O Conselho foi convocado a uma outra sala onde os Fregueses disseram que se eles continuassem afastando os fornecedores não iriam mais negociar com eles. Que por melhores que eles fossem, não supriam a demanda. Era preciso contar com todos os agricultores da Aldeia.
Foi convocada uma nova reunião na velha Sala. Apenas o Conselho compareceu. Os habitantes da Aldeia tinham decidido experimentar a liberdade. Talvez disso saíssem resultados desastrosos. Talvez a Aldeia fosse levada à total ruína. Talvez não. Talvez surgissem novas ideias, de cabeças mais frescas, de gente ainda não tão apegada aos velhos métodos e regulamentos. Talvez surgisse uma nova Aldeia. Talvez os Fregueses que tinham migrado pra outras vilas voltassem. Ninguém podia dizer com segurança o que aconteceria. Mas de uma coisa todos tinham certeza: o que eles tinham até ali não era mais satisfatório nem eficaz, não condizia com os novos tempos, as novas necessidades, as novas possibilidades. E a dúvida, naquele momento crítico, era melhor do que a certeza de mais uma temporada com tudo acontecendo errado e com pessoas inocentes pagando por erros que não eram delas.


Moral da História:
A melhor maneira de fazer desaparecer a ameaça da demissão é encher o peito e dizer EU ME DEMITO!