sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

ASCÂNIO

“Ascânio é do signo de Verme. Com ascendente em Cobra.”
Era assim que Arilene, nascida Carlos Eduardo, descrevia o amigo. Na verdade, Ascânio não era exatamente amigo do travesti. Mas Arilene ganhava um bom dinheiro como manicure de gente que ela costumava chamar de “Grande Média”. Idade média, cultura média, dinheiro médio, vida mediana, conceitos medíocres. Gente que, segundo Arilene, era capaz de andar dois quarteirões com um copinho sujo na mão só pra achar a lixeira da cor certa mas apoiava, em teoria, os quebra-quebras pela cidade como forma de protesto, mesmo que isso espalhasse cacos de vidro e sangue na rua em frente à vitrine destroçada. Gente que passava as manhãs pelas calçadas recolhendo cocô do próprio cão com as mãos mas tinha babá pra trocar a fralda do filho.  Gente que se abanava e grunhia acintosa e deseducadamente ao ver alguém acender um cigarro, a dez metros de distância, pra mostrar seu desagrado com esse vício e corria pra casa pra tomar um Valium a fim de se acalmar. Gente que inseria duas ou três palavras em outro idioma, em geral inglês, em cada frase que dizia mas escrevia “gordisse” na Internet. Gente média. Uma Grande Média! Gente que pagava até mais caro pelos serviços dela. Arilene era excelente manicure, mas sabia que a maioria a chamava pra exibir sua falta de preconceito. E cobrava bem por essa exibição.
Ascânio tinha trinta e dois anos e havia muito pouca coisa que ainda não tivesse feito. De ruim. Desafetos diziam que ele só não agiria errado com a própria mãe. Se enganavam. Aos vinte e dois anos Ascânio falsificara a assinatura do pai recém falecido pra vender a casa em que moravam deixando a mãe em um barraco invadido, prometendo voltar logo pra tirá-la de lá. Não voltou nem para o funeral que os vizinhos providenciaram. Os inimigos preferiam esquecer dele. Os poucos amigos apelidavam Ascânio, carinhosamente, de Asco.
Era um homem alto, relativamente bonito, olhos verdes, um imerecido corpo atlético, já que os únicos esportes que praticava eram levantamento de copo, lançamento de bitucas, sinuca e sexo. Na verdade, ele não considerava a sinuca e o sexo como esportes. Eram um meio de vida. Os patos deixavam todo seu dinheiro no feltro verde quando jogavam contra ele. As mulheres se encantavam por ele como serpentes hipnotizadas pela música de um faquir. As mulheres e Arilene.
Ela perdoava todos os erros, golpes e traições de Ascânio.
- Depois de tudo, é na minha cama que ele é feliz. E me faz feliz. – era o que ela sempre dizia. Pra todo mundo! Ascânio não ficava muito feliz com isso.
Arilene sabia que se enganava, sabia que ele só a procurava atrás de dinheiro pra torrar no bar e na sinuca ou, pior, com alguma mulher. Mas o que fazer? Não resistia àqueles olhos verdes.
Ela já havia apanhado de Ascânio outras vezes. Chorava, ameçava denúncias e, no fim, terminava na cama com ele e amanhecia fazendo café e separando dinheiro pra “colaborar com meu nêgo”. Por que naquela manhã de domingo foi diferente? Por que Ascânio amanheceu no chão da cozinha com a cabeça esfacelada por um ferro de passar roupa?
Quando a polícia chegou, Arilene estava sentada numa cadeira, sem oferecer qualquer resistência, olhos já secos e inchados de tanto chorar. Aos poucos foram extraindo a história.
No sábado, Ascânio tinha chegado tarde e bêbado. Como sempre. Bateu nela por causa de dinheiro. Como sempre. Arilene tinha uma poupança. Estava juntando dinheiro pra realizar um sonho. Ascânio, aos gritos, dizia que sonho de bicha era apanhar com força e que pra isso não precisava de grana. Bateu até conseguir o cartão do banco e a senha. Antes de sair, Ascânio, rindo maldosamente, disse que o dinheiro era pra fazer bonito pra um outro travesti cheio da grana no qual ele estava investindo. Disse que se era pra passar por aquele tipo de humilhação, que fosse por um dinheiro de verdade. Tinha que parecer que ele não precisava de nada pra enrolar o traveco novo. O ferro de passar estava em cima da mesa. Arilene, antes de começar a apanhar, tinha passado duas camisas dele.
- Eu sempre disse que ele era do signo de Cobra com ascendente em Verme. Ou vice-versa. E é só assim que a gente se livra desses bichos, não? Esmagando a cabeça.
Arilene vai cumprir pena, fichada como Carlos Eduardo. Ascânio não teve tempo de sacar o dinheiro que vai continuar lá na poupança. Sem poder ser usado pra realizar o sonho de Arilene. Comprar um carro pro Ascânio. “Pra colaborar com meu nêgo”.