quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

O CRONISTA

     De todas as atividades que exercia, a que menos rendia e que mais dava prazer a ele era a de cronista. Escrevia crônicas para um pequeno jornal e as publicava em um blog também. Com o tempo foi adquirindo leitores assíduos. Escreviam para ele, comentavam seus textos. Amigos passaram a ler sempre que ele publicava e se diziam fãs do que ele fazia. Mas ela nunca lia. Não se interessava muito pelo que ela chamava de “prazeres do marido”. Ela compreendia, até se dizia apoiadora de tudo o que ele fazia, mas o que ela entendia como apoio ele via como simplesmente não impedimento. Ela não se queixava se ele, por exemplo, passasse a noite acordado tentando criar um texto novo. Não parecia se importar quando, às vezes, ele passava dois ou três dias sem dizer uma palavra porque estava desenvolvendo uma nova ideia. Mas depois de um parto de uma madrugada inteira, todos os leitores do jornal, os seguidores do blog e os amigos mais chegados corriam afoitos para lerem “mais uma” dele. Ela não. Alegava que já conhecia os pensamentos dele, já sabia de todas as opiniões que ele tinha sobre qualquer assunto e que não precisava ler. Tinha o autor em casa, falando pessoalmente sobre tudo.
     Todos os amigos comentavam os textos e, às vezes, ela era apanhada de surpresa com o pessoal falando de um assunto do qual ela não tinha a menor ideia. Achou que aquilo não ficava bem e passou a ler, de vez em quando. Superficialmente, uma leitura rápida, só pra não estar totalmente desinformada caso alguém comentasse.
     Eles estavam na sala, cada um em seu notebook. Ela com uma planilha, cuidando de recebimentos e coisas a pagar. Ele embatucado, olhando para a tela branca, tentando criar um novo texto. Tinha prazo. O jornal precisava da crônica. Até o dia seguinte de manhã, no máximo. Mas a ideia não vinha.
     - Tem alguma sugestão?
     - Hum? – mais como quem diz não atrapalha minhas contas com suas brincadeiras.
     - Uma ideia. Algum tema pra uma crônica.
     - Hum-hum...
     - Hum-hum quer dizer o que?
     - Quer dizer o que o quê?
     - Não consigo pensar em nada. Que porcaria de cronista que eu sou. Tem cara que escreve uma crônica por dia. Eu tenho que mandar uma por quinzena pro jornal e consigo ficar travado.
     - Não esquenta com isso. Faz outra coisa.
     - Como não esquenta? É importante pra mim. Assumi o compromisso de escrever. Tenho que entregar.
     - Hum-hum...
     - Também, não saio mais desta casa.
     - Hum...
     - Um cronista tem que estar pelo mundo, tem que ver coisas acontecendo pra poder comentar. Passo a maior parte do tempo aqui dentro. Do que é que eu sei?
     - Hum... – ela tinha acabado de descobrir um erro de fórmula em uma das células da planilha.
   - Sei o que leio no Facebook e no Twitter e nesses lugares todo mundo é bom, todo mundo é preocupado com a política, todo mundo é anti-homofóbico, todo mundo tem consciência social, todo mundo é a favor dos animais, todo mundo é anti-racista, todo mundo só tem pensamentos bons, dignos, decentes, todos só distribuem frases profundas, elevadas, de alto teor moral, mesmo que tenham sido copiadas e coladas de outro lugar.
     - Hum-hum...
     - Assim é difícil encontrar um bom tema pra desenvolver de forma inteligente ou engraçada. Um cronista cria histórias a partir da observação. Um cronista comenta o dia-a-dia, desenvolve ideias a partir de fatos, comenta a vida imediata, pouco a pouco faz um retrato do seu tempo, da sua gente, do seu mundo com textos inteligentes, contundentes, em geral com alguma dose de humor ou de ironia.
     - Hum... – ela acabara de descobrir como corrigir a fórmula.
     - Bom... Também posso escrever qualquer coisa. Meu compromisso é com a data. Tenho que entregar um texto. Ninguém disse que toda vez tem que ser inteligente, contundente ou engraçado.
     E ela, enquanto corrigia a fórmula:
     - Mas não custa, de vez em quando, você tentar, né?
     Ele ficou uma semana sem falar com ela. Mas ela nem percebeu.

domingo, 2 de fevereiro de 2014

A RUIVINHA DA ENGUAGUAÇU

Só por estar sentado naquele ônibus a caminho do litoral, ele já se sentia muito contente. Passara toda a infância em Santos, quando a cidade ainda era toda de areia, quase cinquenta anos atrás. Voltar lá era sempre um ritual. Cada prédio antigo, cada nome de rua, cada pequeno detalhe era como um velho amigo reencontrado.
Uma mulher percorreu o corredor do ônibus e se sentou ao seu lado. Ele calculou que ela tivesse uns quarenta e cinco anos. Não muito alta, ainda bonita e, detalhe mais importante: cabelos muito vermelhos e o rosto cheio de sardas. O que ele sentia por pessoas ruivas só não podia ser classificado como tara porque era dirigido a “pessoas” ruivas, não só a mulheres ruivas. Era mais uma admiração. Aquela composição de cabelos vermelhos em volta de pintinhas marrons sobre uma pele de um branco incomum o fascinava.
O ônibus partiu. Ele inclinou o banco, virou para o lado e fingiu que dormia pra que a mulher não percebesse que fazia parte de seus pensamentos. De onde vinha essa adoração pela imagem ruiva? Ele tinha a impressão de que tudo havia começado na sua infância, em Santos. A ruivinha da rua Enguaguaçu. A menina que morava a duas ou três quadras de distância da casa dele. Quando a viu pela primeira vez, ele devia ter uns oito anos. Ficou encantado com a imagem. Nunca tinha visto uma ruiva. A menina, de uns seis ou sete anos, passou com a mãe, voltando da escola. Ele, moleque, brincando o dia todo pela Enguaguaçu, pela Adolfo Lutz e outras ruas de areia da Ponta da Praia, sem medir consequências, seguiu a menina. Viu que ela entrou na casa da esquina que ficava quase em frente à fábrica de bananada que havia ali. Daí em diante, durante os dois anos seguintes, não houve um único dia em que não fosse até a esquina onde morava a ruivinha. Como um predecessor de Charlie Brown, ele amava a menina, amor do tipo que só garotos sentem, um pouco antes de começarem a sentir o outro, aquele que os torna audaciosos e invasivos. Durante dois anos ele a amou em silêncio. Nunca falou com ela, nunca chegou perto dela, passava pela rua, olhava de longe para o quintal, via a menina e ia embora quase feliz, quase realizado. Nunca soube se algum dia ela o viu também. Nunca ouviu a voz dela. Uma vez ouviu a voz da mãe que a chamou pelo nome: Ângela!
Com esses pensamentos camuflados pelas pálpebras fechadas, ele acabou dormindo de verdade. Quando acordou, o ônibus estava chegando ao terminal da Ponta da Praia. A mulher já não estava no banco ao lado. Havia saltado do ônibus em algum ponto do caminho.
Ele tinha planejado passar parte do dia na praia, e depois, talvez passear pelo centro, subir o Monte Serrat, ver o antigo prédio da Prefeitura, ir até a praça dos Andradas pra ver se ainda tinha preguiças nas árvores, percorrer a avenida Ana Costa em busca de um dos cinemas antigos, visitar o Aquário, quem sabe até passear de catraia até a Praia do Góes. Enfim, reviver a infância tão distante. Mas outras lembranças tinham se entranhado nele durante o sono. Enveredou pela Henrique Soler, chegou à praça Engenheiro José Rebouças, contornou, entrou pela Jurubatuba e logo estava no começo da rua Enguaguaçu. Não se lembrava direito da esquina, não sabia mais onde era a casa e se sentia quase como um adúltero por isso. Não se lembrar de onde morava a Ângela era praticamente uma traição. Mas já fazia mais de quarenta anos. A rua já não era de areia e sim de asfalto, as casas e chalés deram lugar a prédios, apenas algumas velhas residências ainda sobreviviam. Qual seria a esquina certa? Maria Máxima? Olavo de Paula? Egídio Martins? Nomes e imagens se misturavam na cabeça dele. Por cima de tudo a imagem dela. Ângela. A ruivinha da Enguaguaçu. Andou, olhou, chegou a perguntar para algumas pessoas mais velhas se por ali morava alguma “dona” Ângela. Afinal, ele pensou, ela era um ou dois anos mais nova do que ele, devia ter netos hoje em dia, como ele, devia ser uma senhora, talvez gorducha, cheia de rugas... Como ele.
Tinha esquecido a esquina. Qual seria? Sem a fábrica de bananada na frente da casa era impossível. E se ele a encontrasse, o que faria? Contaria tudo? Diria que ela foi seu primeiro amor, tão importante que ele nunca se esqueceu do nome dela nem da cor de seus cabelos? Não. Com certeza, não faria nada. Olharia de longe novamente, sentiria aquela fascinação novamente e não diria nada novamente. Achou melhor desistir. Voltar ao programa original. Passeou pela cidade, reviu lugares que aqueceram seu coração, mas, no fim do dia, voltou para São Paulo com uma frustração. Sabia que não ia adiantar procurar mais, talvez ela tivesse se mudado, talvez estivesse em outro bairro, em outra cidade, até em outro país! Talvez (pensamento assustador que ele imediatamente descartou) tivesse morrido! No ônibus de volta dormiu de novo. Mas sonhou com o trabalho. Nem no sonho ele reviu a ruivinha Ângela.
Algumas horas antes, quando o ônibus havia parado no Embaré, a mulher saltou, contente por se livrar daquele senhor que roncou durante quase toda a viagem ao lado dela. Atravessou a avenida, percorreu dois quarteirões por trás da igreja, chegou ao prédio em que morava com o segundo marido dez anos mais novo do que ela e o enteado de doze anos. Depois que o primeiro marido a deixou, tinha resolvido se cuidar, fez plástica para corrigir rugas e levantar queixo, passou a frequentar academia, modelou o corpo, rejuvenesceu física e mentalmente, ficou mais segura, ficou mais íntima de um dos instrutores que era divorciado e tinha um filho pequeno, se casou com ele e vivia feliz. Um dia por mês ia a São Paulo visitar parentes, mas voltava correndo pra casa que era seu mundo.
Assim que entrou, já ouviu a voz do enteado, com quem se dava muito bem:
- Pai! A tia Ângela chegou!