sábado, 7 de junho de 2014

A DONA

Minha encrenca não é com os bichos. Gosto mesmo de muitos deles. Tenho apreço pela maior parte dos cães (excluindo os sabidamente agressivos cujos donos insistem em dizer que são uns doces), admiro gatos em geral, curto até alguns bichos estranhos como iguanas. Eu crio peixes de aquário! Portanto, não tenho nada contra animais de estimação.
Já quanto aos donos... Ah, os donos!
Esse tratamento humano que vem sendo dado aos bichos de estimação que foram colocados no lugar dos filhos que as pessoas estão evitando ou abortando chega ao limite da patologia. Não, vamos deixar de lado a correção política fastidiosamente vigente no momento atual. É um negócio de doido mesmo!
Um cidadão saía da padaria empurrando uma cadeira de rodas. Sentada nela, uma senhora bem idosa, quase com certeza mãe do cidadão. Eles se dirigiam à rampa que dá acesso à calçada que fica mais ou menos um metro abaixo do piso da padaria.
Vindo no sentido oposto, A Dona! Um belo collie com uma daquelas coleiras que talvez tenha outro nome, já que não fica no pescoço do bicho e sim no meio do corpo. A Dona passou pela frente da cadeira ainda em uma distância segura, mas o cão resolveu parar por ali mesmo. Freou de repente e se postou na frente da roda. O homem que empurrava a cadeira parou rapidamente, esperando que A Dona seguisse em frente, fazendo com que o cão, levemente puxado pela coleira, também seguisse.
Mas e o direito de ir e vir dos cães, onde fica? E o poder de decisão do filhinho dela? E o processo educacional onde não se deve forçar nenhuma atitude?
Pois acho que A Dona pensava exatamente nessas coisas quando, em lugar de puxar o cão, parou e voltou. O bicho permaneceu na frente da roda, claro, e ela se abaixou ao lado dele.
- Não faz assim, neném... O moço precisa passar.
O homem da cadeira ainda teve a esperança de que fosse algum tipo de brincadeira. A senhora sentada olhava o collie com admiração, ela também parecia adorar bichos, talvez do jeito antigo, de quando bicho era bicho e gente era gente, mas achou o cão muito bonito. Só que estava visivelmente mais interessada em voltar pra casa. Talvez precisasse ir ao banheiro, coisa que ela só poderia fazer ao chegar para ser levada pelo filho até o sanitário.
- Olha a vovozinha. – Prosseguiu A Dona com aquele tipo de voz e de pronúncia de palavras que o Tiririca faz quando ridiculariza gente falando com crianças bonitinhas. – A vovozinha quer passar. Vamos dar licença pro moço e pra vovó?
E o collie ali. Nem era com ele. Na verdade não era mesmo, a menos que alguém possa provar de alguma maneira que é possível um cão saber o que é uma vovozinha, o que é um moço, ter a noção de dar licença, saber diferenciar a palavra LICENÇA quando estão falando de abrir caminho e quando estão falando da medalhinha metálica que ele porta ao pescoço e que ele entenda as dificuldades de outras espécies quando estão mais velhas, ou seja, que ele tenha uma percepção de futuro. Só que, na minha opinião, se o bicho tivesse toda essa compreensão, estaria com o saco muito cheio de alguém falando com ele como se fosse um bebê. E, ainda por cima, humano!
Pois bem... O bicho estava confortavelmente instalado e confortavelmente instalado permaneceu. O homem teve que dar ré com a cadeira de rodas e fazer uma volta para, meio espremido, conseguir atingir a rampa e voltar pra casa com a provável mãe dele. E antes de se afastar o suficiente, ainda ouviu A Dona repreendendo o bicho nos moldes recomendados pela moderna pet-psicologia:
- Foi muito feio isso que você fez. Você viu que o moço queria passar com a mamãe dele. E se fosse a sua mamãe? Você ia gostar que fizessem isso comigo?
Não pude evitar de pensar no futuro da tal Dona. Para o bem dela, além de gramática, da sutileza dos significados das palavras, dos conceitos de boa educação, do respeito aos mais velhos de espécies que não sejam a dele, é bom que o collie aprenda a manobrar uma cadeira de rodas no meio de gente maluca quando ela estiver bem velha e com necessidades desse tipo.
Eu ainda acho que um filho adulto faria isso melhor. Mas se a Dona prefere assim...