quinta-feira, 12 de março de 2015

FAZ VINTE ANOS!


     Quando eu era adolescente, entre 15 e 17 anos, cuidava de um jornal na escola. Não era um jornal de verdade, era um mural humorístico onde fazíamos críticas aos professores, piadinhas com alunos, fazíamos montagens com fotos recortadas de jornais e revistas pra brincar com o pessoal do curso. Era um Facebook dos anos 70, época em que o humor era menos patrulhado, a expressão “hater” ainda não havia sido cunhada nem colocada em prática, ninguém sequer conhecia a palavra “bullying”, logo não ficava traumatizado com a ideia e trolagem ainda era chamada de gozação mesmo. O jornalzinho, semanal, se chamava A TOCHA. Nosso slogan, escrito logo abaixo do logotipo do jornal (uma tocha acesa) era: “O que os outros jornais não trazem, A Tocha traz”. Tempos onde ser jovem era ter a impressão de ser livre, onde revolucionar coisas significava subverter a ordem, o status quo, e não exigir uma regressão a proibições e à mão de ferro de poderosos. Outros tempos. Se melhores ou piores não sei. Mas eram outros.

     O que importa é que eu cuidava do tal jornal. A Tocha. Eu era o, digamos, editor chefe da coisa. Mas assumi isso não pra me sentir jornalista e sim pra escrever com liberdade, pra colocar no papel o que me desse na telha. Eu gostava da ideia de escrever em um jornal. Mas não tinha a intenção de me tornar um repórter. Queria escrever, mas não notícias. Com o tempo, aprendi que quem faz isso, em geral, é um cronista. Escreve sobre o que vê, o que sente, o que lembra, o que pensa, enfim, sobre o que tiver vontade. Descobri que grandes autores estudados na própria escola tinham sido cronistas em jornais: José de Alencar, Machado de Assis, Nelson Rodrigues... Eu queria ter textos publicados em jornais, como eles. Mas era difícil. E eu era preguiçoso demais pra correr atrás de coisas muito difíceis.
     Os anos se passaram e, aos 24 anos, conheci uma figura inusitada. Um personagem do ambiente cultural noturno paulistano no qual eu estava inserido desde que tinha entrado para o elenco de A Pena e a Lei, a convite de Carlos Alberto Santana. Nesse elenco conheci Amaro Sant’anna que, por sua vez, me apresentou a duas pessoas: Silton Cardoso e o personagem ao qual me referi acima: Alexandre Camilo! Cabelos cacheados descuidados, um problema em uma das pernas que trazia desde a infância, um discurso fácil, um papo maluco-beleza, uma entrega a longas discussões artísticas, políticas, filosóficas, uma facilidade em manter o calor de um debate por uma noite inteira. Tudo regado a muita cerveja, na quantidade que só jovens embalados pelo sonho conseguem ingerir. Éramos nós nos velhos tempos. Orvietto, Planeta’s, Montechiaro, Gigetto, Sujinho, Bar da Mãe, Piolim, Estadão, a ronda noturna de bares e restaurantes era grande. Todas as noites. E os temas “altamente pertinentes” não se esgotavam nunca.
     Novamente passaram-se anos. Fomos ficando mais velhos, a vida foi nos distanciando fisicamente. Alguns se casaram e tiveram filhos. Carlos Alberto foi embora, primeiro mudou de estado, depois mudou de planeta. Amaro foi pra Bahia e virou um nativo, nunca mais quis voltar. Silton continuou por aqui, batalhando a vida, mas tempos depois também se foi. Talvez esteja fazendo projetos com Carlos Alberto em algum lugar no Universo. Alexandre saiu de São Paulo. Mudou-se para Boituva.
     Há exatamente vinte anos, o velho amigo e companheiro de debates Alexandre Camilo entrou em contato dizendo que estava criando um jornal cultural: O Papyrus. Ele queria uma crônica minha para o primeiro número. Aquilo acendeu todo o fogo da adolescência. Passei uma vida pensando que teria sido bom ter algum texto meu publicado em um jornal. Já tinha escrito peças que haviam sido montadas, roteiros que foram filmados, já tinha histórias para rádio levadas ao ar. Mas texto meu em jornal continuava em suspenso. Nunca havia acontecido. Ali estava minha primeira chance. Aos 41 anos de idade! Imediatamente enviei um texto chamado “Qual o Problema com o Português?” que falava da aversão de alguns brasileiros a filmes dublados.
     De lá pra cá, venho tendo textos publicados no Papyrus. Hoje, aos 61 anos, vinte anos depois, continuo tendo meu nome impresso no jornal. Me sinto grato. Me sinto feliz com isso. E me sinto orgulhoso de ter feito parte dessa grande aventura do Alexandre desde o primeiro momento. O Papyrus foi, em princípio, um projeto doido, com jeitão de inexequível, a cara do maluco-beleza dos anos 70. Mas o Alexandre acreditou nele, batalhou por ele, sofreu por ele, se desgastou por ele, se sacrificou por ele e hoje aí está... completando vinte anos de existência.
     Longa vida ao Papyrus! Mais longa ainda! Parabéns ao Alexandre pela força e pertinácia, por não desistir nos maus momentos. Parabéns a todos que participaram dessa viagem de vinte anos colaborando, escrevendo, patrocinando, apoiando. Parabéns aos que proporcionaram motivos para o jornal existir, lendo, acompanhando, comentando.
     E parabéns a mim também, por que não? Faz vinte anos que, finalmente, me tornei um cronista publicado por um jornal.
Valeu, Papyrus! Obrigado, Alexandre!
Postar um comentário